Domingo, 27 de Setembro de 2020 23:59
62 992250155
Opinião Opinião

Como o brasileiro esqueceu o valor da leitura?

Se uma criança cresce ouvindo que brasileiros não leem, ela será um adulto que acredita nessa frase

15/09/2020 09h36 Atualizada há 1 semana
Por: Cláudio Bertode
Como o brasileiro esqueceu o valor da leitura?

"Uma leitura alegre é tão útil à saúde quanto o exercício do corpo". Esta citação de Emmanuel Kant demonstra que o filósofo alemão, crítico ferrenho em relação aos males que a vida em sociedade trazia ao ser humano, equiparava o ato da leitura à atividade física em uma academia. Claro que sua declaração não valoriza qualquer ato de leitura, deixa bem claro que devemos ler coisas alegres e positivas para a vida do indivíduo. No entanto, esse texto de singela opinião não pretende debater o valor também das leituras tristes, ou a importância de se ler gêneros alegres ou trágicos. Até por que sempre defendo que qualquer leitura é boa para se começar, claro que caberia a ressalva de que não é muito prazeroso a quem esteja iniciando no mundo da leitura, ler livros com contextos muito longe da realidade dessa pessoa. Ressalvas feitas, o que importa é o debate em torno da afirmação de que o brasileiro não lê. De tanto se afirmar, essa premissa ganhou pompa de uma verdade. Desde criança ouvimos os adultos repetirem que não somos um país de leitores. Não valorizamos a literatura, dizem os mais velhos. Uma repetição coletiva e constante gera uma crença também coletiva, inclusive com todas as justificativas para não se fazer algo que as crenças geram para controlar nossa vida. Imagine esse fenômeno da construção de crenças negativas aplicado a vida em sociedade em torno de um tema como a leitura.

Em PNL (Programação Neurolinguística), aprende-se que crenças são os parâmetros criados em nosso subconsciente, desde nossa infância, através de emoções fortes, repetições, traumas e tudo que impacta certos momentos em nossa jornada. Tais parâmetros são as bases para tudo que acreditamos, para tudo que significamos sobre nós mesmos, sobre os outros e sobre o mundo a nossa volta. Ou seja, tudo se resume a nossas crenças. E o que isso tem a ver com o debate sobre o hábito de leitura dos brasileiros? Tudo. Além das crenças individuais, temos um fator cultural e coletivo no ato de usar crenças para significar de maneira positiva ou negativa um fenômeno de nosso ambiente. Cria-se um subconsciente coletivo que tem seus próprios parâmetros. De tanto repetirem que o brasileiro não gosta de ler, que o brasileiro tem preguiça de pegar um livro, que se não começa a ler desde cedo a pessoa nunca vai gostar de ler, que os pais brasileiros não leem para os filhos, que a escola não incentiva a leitura prazerosa, que a literatura da escola é ruim, que os livros que a escola trabalha são de autores muito antigos e que não desperta interesse, que livros são caros e existem coisas mais úteis para se investir dinheiro. Todas essas frases são ouvidas quando se fala sobre o tema "leitura no Brasil".

Assim, de tanto falarmos e de tanto reafirmarmos em nossa mente, torna-se uma verdade para a pessoa. Logo um pai pensa, para que eu vou ler para meu filho? Ninguém no Brasil faz  isso, nem adianta, pois lá na escola os livros não ajudam muito, nem adianta, uma vez que a leitura na escola não é lúdica. Cria-se, assim, uma crença muito negativa em relação ao ato da leitura. Não fazemos isso por maldade, apenas reproduzimos o que ouvimos desde criança. É como um ciclo vicioso e paradoxal do qual não se foge fácil.

Na mídia, as matérias e notícias não ajudam muito, sejam as informações de opinião, seja sobre as pesquisas feitas sobre leitura no país, apenas reafirmam o fracasso do brasileiro como leitor. Não se deve subestimar o poder que a imprensa possui. Não se enganem, mesmo com o advento das fake news, a imprensa ainda é o quarto poder. Tão forte e, justamente por isso, alguns utilizam subterfúgio de informações falsas para tirar vantagem perante a opinião pública plantando, inclusive, desinformação para colher a insegurança social. Não é que a imprensa não divulgue os fatos verdadeiros sobre os hábitos de leitura do brasileiro. Nada disso, a questão é que as informações que circulam na mídia, sobre o tema leitura, misturadas com informações de senso comum que circulam dia e noite nas redes sociais, deixam muito mais negativo o ambiente de informações a respeito das condições do "brasileiro leitor", e faz o trabalho de se educar futuros leitores ainda mais pesado.

Claro que não existirá um caminho fácil para a aproximação das futuras gerações do universo dos livros, no entanto precisamos dar um primeiro passo. Por exemplo, algo simples, mas muito poderoso que é começarmos a dizer para as crianças que elas são ótimas leitoras, pararmos de dizer que livro é um investimento desperdiçado e começarmos a mostrar o quanto é bonito ganhar ou dar um livro de presente. Outra iniciativa simples pode ser condicionar nossos filhos que para ganhar determinado presente, primeiro deverá cumprir metas de leitura, isso fará com que a criança crie a crença de que ler gera recompensas. O maior sonho de uma criança, às vezes, é ganhar aquele brinquedo que foi divulgado no anúncio do intervalo da animação preferida que passa na televisão ou no canal do youtube. Então diga que se ler determinado livro, ganhará o presente.

Por fim, não menos importante, as escolas devem fazer trabalhos em que todos os professores ajudem, não adianta o professor de literatura, de língua portuguesa criarem projetos bonitos que em casa os pais não reforçam positivamente e os outros professores, sem maldade, acabam sabotando. O governo deve parar, e tem de ser urgente, de premiar apenas olimpíadas de Língua Portuguesa do estilo "escrever" textos sobre lugares onde a criança vive. Esses textos, em boa parte, nem são escritos pela criança de fato. Seria útil também premiar pequenos leitores, ou seja, seria barato criar a Semana Nacional da Leitura. Todas as escolas poderiam criar eventos que envolvessem também a comunidade, teatro, música, e claro, murais de leitura por toda a escola, livros e livos circulando por todos os lares. Quem sabe um dia comecemos a dizer com orgulho e por todos os ambientes que brasileiro lê e lê muito. Acreditem, é muito verdadeira a frase do escritor Henry David, muitos grandes "homens iniciaram uma nova era em suas vidas a partir da leitura e um livro"

 

 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.