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CINQUENTA TONS DA ARTE: TENHO UM PALADAR QUE POUCOS ENTENDERIAM

Não gosto da obra de arte em si. Desmotiva-me o objeto artístico, seja qual for, isolada do seu criador.

16/10/2020 19h40 Atualizada há 1 semana
Por: Cláudio Bertode
CINQUENTA TONS DA ARTE: TENHO UM PALADAR QUE POUCOS ENTENDERIAM

Não gosto da obra de arte em si. Desmotiva-me o objeto artístico, seja qual for, isolado do seu criador. Gosto mesmo é de contemplar as ranhuras que deixam escapar fagulhas, nacos do ser por trás de tudo. Não gosto do apreciar o objeto nu, livre e despojado de seu criador. Não importa o que ensinava Olavo Bilac, diferente do grande poeta parnasiano, não me sinto em transe de contemplação da obra sem saber detalhes do artista. Preciso saber quem era o criador, preciso imaginar os gatilhos que levaram à criação daquele objeto estético tão divino. 

Necessito de algo a mais. Muito mais que ouvir uma música, muito mais que ler uma poesia ou contemplar uma apresentação de dança, muito além de ser expectador de uma peça de teatro, de um quadro ou escultura, bem mais que ler uma narrativa ou assistir a uma obra cinematográfica. Claro que em relação ao cinema é muito mais complexa minha degustação, ali temos a confluência de muitas faces da criação artística. Temos o roteirista com sua solidão magistralmente aplicada a criar o mundo ficcional, temos o olhar do diretor com sua capacidade de releitura e agilidade de dar vida ao ambiente do enredo, temos cada ator em sua mais fluente capacidade de ser outros além de si. A capacidade de dar vida a cada personagem escrito e descrito em papel. Ah, o cinema, são tantos detalhes de apreciação que faz o intangível ganhar vida e sabor em cada passo do processo. 

E assim, eu persigo minha sede de beber cada vírgula, cada reticência que denota a presença do artista na obra, de tudo um pouco quero saber. Preciso saber qual foi o instante exato em que a epifania da criação aconteceu. Preciso contemplar também o artista, preciso de certa sintonia com o ser comum por trás de tudo. Preciso refletir o que dá forças, o que leva seres tão precários como os seres humanos a serem capazes de criações tão magníficas. 

Muitos afirmarão que sou dos que fazem contemplação da obra, fazendo análise psicológica do artista. Uma interpretação falsa, desprezando a potência que emana da própria obra. Uma análise crítica da persona e não do objeto em si. Quase um psiquiatra diante de um paciente e analisando as dores e mazelas do artista por meio de suas criações. Não, não é isso. Jamais. Não sou o Freud da ficção ou psicólogo de livros, como comentou certa vez o grande Gaston Bachelard. 

O que quero reafirmar é minha leiga vontade de compreender a grandeza do gesto da criação artística. Partindo do princípio que todo ato de criação toca fagulhas de divindade. Que todo princípio artístico é um transe que aproxima o humano do divino. Então, mais que justo eu querer saber, querer sentir o que esse artista, mero ser humano, como diria Cassiano Ricardo, “O poeta é um homem que tem fome como qualquer outro homem”. Esse homem com todas as limitações que carrega cada ser humano, consegue por um instante tocar algo em um plano superior. 

E desse transe, inspiração, epifania, genialidade, não importa como você chama esse ato, o que importa é que esse pequeno ser humano por uma fração, por um instante, torna-se grandioso e divino. Nesse momento, ele é capaz de criar o impossível através de sua arte. 

Nesse sentido, que apenas me debruçar e contemplar o objeto, ao menos para mim, é muito pouco. Preciso de cada detalhe, cada minimíssima sensação, preciso saber qual foi o gatilho que desencadeou todo o processo em seu subconsciente e fez com que o impossível fosse possível. Que dor, que alegria, que sentimento tão profundo foi capaz de ser combustão para o impensável? Qual foi a fagulha que acendeu o pavio do fogo capaz de moldar a matéria prima da divindade de trazer a lume algo tão grandioso a ponto de nos postar de joelhos e com inveja? A ponto de nos fazermos tão pequenos diante de tamanha potência? 

Sim, ao menos eu preciso de saber, saber bem mais do que o que está representado no objeto artístico. Necessito de saber do artista, preciso de estar onde ele esteve, saber de sua jornada, de sua queda, de sua trajetória humana até aquele ambiente que tornou possível seu mais profundo voo de super-homem....

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